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Novata da Seleção de goalball, Kátia volta a sonhar graças à bola azul

Após tentativa de suicídio na adolescência e desejo de largar o esporte há dois anos, atleta vai estrear pela Seleção
#Acessibilidade: Kátia cai para o lado direito com as pernas esticadas, e defende a bola com os dois braços. Ela veste calça preta e camisa de jogo verde com mangas azuis. Atrás dela, a trave de goalball. Foto: Alê Cabral/ CPB.
12/07/2021

Por Comunicação CBDV
12/07/2021
São Paulo/SP

Contar a história de Kátia Aparecida Ferreira Silva é praticamente dividi-la em duas partes: antes e depois do goalball. A primeira metade quase foi interrompida aos 14 anos, quando a depressão provocada pela notícia de que ficaria cega para o resto da vida a levou a uma tentativa frustrada de suicídio em sua cidade-natal, Unaí, em Minas Gerais. Já a segunda começa quando ela pisou na quadra e tocou naquela bola azul pesada pela primeira vez, em Brasília, seu lar a partir de 2015.

"Sinto que nasci de novo quando conheci o goalball porque vi que o cego podia sonhar, ser independente, fazer projetos. Até então, eu pensava que era a única cega do universo. Quando vi aquela alegria nos treinos, aquela liberdade, o espírito coletivo, comecei a sonhar de novo", conta a jogadora de 26 anos, que descobriu o glaucoma apenas aos 13 anos de idade, após uma hemorragia provocada por pressão ocular.

Mas o plano original da viagem ao Distrito Federal era bem diferente. Após concluir o Ensino Médio, a ida para a capital do país se deu unicamente para ajudar a irmã Isabel, que estava grávida e havia se mudado para lá. "Eu nem imaginava que era possível um cego ser atleta. Também não fui com a ilusão de estudar. Tanto que eu dizia que, assim que minha irmã se estabilizasse, eu voltaria para a roça", relata.

Foi uma vizinha com baixa visão que lhe apresentou o CEEDV (Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais) quem acabou ajudando Kátia a conectar as duas partes da sua vida e transformá-la numa só. "Costumo dizer que o Centro foi a minha porta para o mundo."

A caçula dos três filhos da dona Maria e do seu Paulo passou, então, a lidar com uma jornada dupla de estudos e treinos que, em 2019, quase teve desfecho desfavorável para o goalball. "Eu vinha fazendo as duas coisas 'meia-boca', não me dedicava 100% nem a um nem a outro. Então decidi só treinar. Tive fome de melhorar, de ser campeã. E os resultados vieram, fomos campeãs do Regional, da Série B. Só que no fim do ano eu desanimei. Liguei para o treinador dizendo que eu estava pedindo meu desligamento do time", diz, referindo-se a Gabriel Goulart, técnico do Cetefe-DF.

Veio do próprio Gabriel a notícia que mudaria tudo mais uma vez na trajetória de Kátia: "Eu estava em casa me preparando para ir assinar a papelada para sair do time quando o Gabriel ligou gritando: 'Saiu! Saiu, tá lá no site!'. E eu sem entender nada. 'Seu nome, você foi convocada para a Seleção!'. Quando eu vi, não sabia se ria, se chorava", recorda-se a ala.

#Acessibilidade: Kátia está com a mão direita apoiada no chão da quadra à espera da bola, que se encontra à sua frente e ao lado da atleta Carol Duarte. Foto: Alê Cabral/ CPB.

Pandemia e Tóquio

Como nada vem fácil na vida da mineira, às vésperas de sua primeira viagem com a Seleção – um intercâmbio em Israel marcado para março do ano passado –, o novo coronavírus mudou tudo e o goalball permaneceu como uma atividade solitária por longos meses. Convocada para os Jogos de Tóquio, ela agora espera que a sonhada estreia com a camisa do Brasil venha acompanhada da primeira medalha paralímpica das mulheres.

"O sentimento nesse momento é uma mistura de incerteza, medo, alegria, emoção, tudo junto. Não tive muito tempo para treinar com a Seleção ou de conhecer as adversárias. Mas estou confiante em mim e na equipe. Botei na minha cabeça que, independentemente do país do outro lado, é goalball. É a mesma bola com a qual treinamos todos os dias, são mulheres como nós, então, não tem por que sentir medo ou ficar intimidada. E, se eu entrar em quadra, estou preparada para dar o meu melhor.”

De quem já renasceu duas vezes em tão pouco tempo de vida, impossível duvidar.


Comunicação CBDV

Renan Cacioli

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